domingo, julho 13, 2008

as memórias, essas coisinhas. o processo de aprendizado do ser humano passa, necessariamente, pelo esquecimento. esse é um dos princípios que faz com que as máquinas, apesar de terem capacidade de armazenamento dita infinita, não consigam gerar conhecimento [que é diferente de informação]. esquecer é preciso para que as construções sejam feitas e para que possamos ir adiante, montando nosso lego interior e particular continuamente.

só que, além da parte mental, o ser humano sempre guardou memórias materiais - anexos palpáveis de vivência. numa caixinha com cartas. em pinturas. em mensagens sms. em rosas dentro de livros. em fotografias. em fitas vhs. em emails. em pequenos bilhetes. em uma peça de roupa. em um objeto que para qualquer outro ser humano seria lixo. em desenhos nas cavernas. em um diário secreto. em blogs públicos.

essa necessidade de retenção de acontecimento, de pedaço importante da vida. manter scraps no orkut demonstra isso até menos do que apagá-los. apagar, essa demanda de esforço, reafirma a força dessa forma de lembrar. aquele rastro tão breve e aparentemente efêmero parece exigir alguma forma de atenção, como quando as senhoras da literatura queimavam as cartas recebidas de um admirador, anônimo ou não [mas é fato que eliminar as formas físicas de memória não elimina, necessariamente, a memória em si].

e esse acúmulo que é lembrança e é memória sempre foi organizado, reparem, em forma de narrativa. organizamos a nossa vida com histórias. daquele dia no colégio. ou aquele outro nas escadas do teatro. daquele na choperia. daquela improvável noite na praça da estação. neste momento conto minhas impressões sobre o lembrar dessa maneira, construindo estratégias que talvez façam com que você, leitor, acredite que realmente trarei uma constatação minimamente aceitável, quiçá interessante, sobre essa coisa toda.

o fato é que, no tempo em que estamos, esse tempo que traz peças de teatro como 'não desperdice sua única vida'*, fragmentos de história, possibilidades que pululam e que nos deixam inquietos com suas possibilidades de contar [e se meu caminho fosse outro?], me fazem ter vontades românticas de tecnologia, vida em dvd, na qual eu poderia assistir o caminho 2, depois o 3, depois o 1, em seguida o 3 de novo, checar os extras, pra saber o que seria da minha narrativa se. produção de possibilidades de produção. como seria o lembrar?

*da companhia de teatro luna lunera.

Um comentário:

Ferdi disse...

Às vezes eu queria fazer um back-up e deixar minhas memórias em algum lugar onde eu possa acessá-las novamente qdo eu quiser e se eu quiser. Qto às físicas, lido hipermal com elas. Tenho várias caixas com "coisas que eu não posso ver"...rs. Sério. Mas eu deixo guardado pq sei que se me desfizer disso vou me arrepender dps.
Beijos!!